Periódicos científicos de modelo diamante e com taxas de publicação (APC) na América Latina: sustentabilidade em um ecossistema em transformação

O DOAJ desempenha um papel crucial no aumento da visibilidade global de periódicos científicos latino-americanos – em sua maioria, publicações que adotam o modelo de acesso aberto diamante e são financiadas por universidades públicas e instituições de pesquisa. Nesta postagem, as embaixadoras da DOAJ, Carolina Dias, Gimena del Río Riande e Ivonne Lujano Vilchis observam que, embora o modelo diiamante continue dominante, um número pequeno, porém crescente, de periódicos na região está adotando cobrando taxas de publicação (APCs) para cobrir custos operacionais, o que sinaliza mudanças no cenário da comunicação científica e a necessidade de financiamento sustentável na região..

O DOAJ abrange uma coleção diversificada de periódicos de acesso aberto da América Latina

Atualmente, o DOAJ indexa 3.240 revistas de instituições latino-americanas de 22 países diferentes, sendo que mais de 86% delas são editadas por universidades, instituições de ensino e centros de pesquisa. O número de títulos latino-americanos no diretório aumentou quase 10% entre 2020 e 2024, passando de 2.951 para 3.240 (Crawford, 2024).

O DOAJ é especialmente importante para a América Latina porque proporciona visibilidade global às suas revistas — e pesquisas recentes sugerem que estar no DOAJ é crucial para a inclusão em bases bibliográficas de acesso aberto como o OpenAlex (Chavarro et al, 2025). Isso é particularmente relevante para o sistema de publicação acadêmica da região que, historicamente, se diferenciou dos modelos dominantes no Norte Global (Babini, 2011; Cetto, 2015). A América Latina desenvolveu uma forte cultura de publicação acadêmica ancorada nas universidades públicas e, portanto, distinta do modelo corporativo predominante nos países do Norte. Consequentemente, as universidades se tornaram grandes produtoras de periódicos e livros na região. Atualmente, a maioria dos periódicos latino-americanos é financiada e mantida por universidades ou centros de pesquisa por meio do modelo de Acesso Aberto Diamante (AA Diamante). O DOAJ auxilia essas revistas que frequentemente enfrentam dificuldades de reconhecimento internacional devido a barreiras linguísticas (del Rio Riande e Lujano Vilchis, 2024), indexação limitada em bases de dados comerciais e falta de visibilidade fora das redes de metapublicação nacionais ou regionais (DOAJ, 2023). Juntamente com o Catálogo 2.0 do Latindexque indexa 3.925 revistas da região, o DOAJ é uma fonte extraordinária de visibilidade para os periódicos latino-americanos. 

O crescimento do modelo baseado em APC na América Latina 

OA encompasses several access models, often labeled as Gold (APC-based OA with open licenses), Diamond (non-fee OA journals with open licenses), and Bronze (non-fee OA with no open licenses) (Piwowar et al., 2018). As an extensive and diverse index, DOAJ welcomes  Diamond and Gold OA models while recommending best editorial practices to enhance the visibility, accessibility, reputation, use, and impact of quality research. For instance, recently, DOAJ introduced its first journal label for journals that have transitioned from closed to open access under the Subscribe to Open model (S2O model).

Relatórios como o "OA Diamond Journals Study" de 2021, encomendado pela cOAlition S e pela Science Europe, citam a América Latina como um exemplo de liderança na publicação sustentável em AA Diamante, com infraestruturas robustas, milhares de revistas e décadas de experiência (Bosman et al., 2021).

Embora o ecossistema de revistas científicas na América Latina seja predominantemente composto por títulos de Acesso Aberto Diamante, o número de publicações que cobram taxas de processamento de artigos (APCs) parece ter crescido na região (Gonzalez, 2024; Alperin, 2022). Em dezembro de 2025, o DOAJ listava 3.337 revistas de instituições latino-americanas e cerca de 4,8% delas, ou 166 revistas, cobravam APCs. Um estudo recente no SciELO Chile descobriu que, das 136 revistas indexadas, cerca de 14% (19 títulos) cobravam alguma taxa dos autores, sendo que 42% delas eram publicadas por associações científicas ou profissionais e pertenciam às Ciências Biológicas. Os valores cobrados variaram bastante, de US$ 35 a US$ 2.690. 

Analisando mais detalhadamente esse conjunto de periódicos latino-americanos indexados no DOAJ que cobram taxas de publicação (APCs), os números mostram que os periódicos títulos de medicina e agricultura lideram o modelo baseado em APCs na região, com uma disciplina ou a outra sendo mais proeminente em países específicos, como a medicina no Brasil e no Chile, e a agricultura no México, Argentina, Peru e Bolívia. A prevalência do modelo baseado em APCs entre os periódicos médicos é uma tendência que outros dados já revelaram sobre diversas regiões. Por exemplo, a ferramenta Journal Comparison Service, uma iniciativa descontinuada desenvolvida pela cOAlition S, mostrou que, dos 1.871 periódicos registrados nesse serviço, quase 30% eram periódicos de medicina e ciências da saúde.

Figure 1 - Latin American APC-based journals in DOAJ by subject, 2025
Figura 1 - Periódicos latino-americanos indexados no DOAJ com taxas de publicação (APCs) por disciplina, 2025

O número crescente de revistas de Acesso Aberto (AA) na América Latina que cobram taxas de publicação (APCs) sinaliza mudanças no cenário da comunicação científica da região. Essas mudanças também afetaram a metodologia do Catálogo 2.0 do Latindex, que agora inclui uma declaração sobre quaisquer taxas cobradas dos autores. Além disso, agora os periódicos com taxas de publicação (APC) ou aqueles publicados por instituições privadas devem ser indexados no DOAJ para fazerem parte do Catálogo (Latindex, 2025).

Um modelo latino-americano baseado em APCs?

Existem inúmeras razões para o aumento do número de revistas de Acesso Aberto (AA) que cobram APCs na América Latina. Elas se relacionam ao contexto institucional, à estrutura do sistema de ciência e tecnologia — frequentemente público, na região — e às políticas atuais de comunicação científica nesses países. No entanto, uma análise dos sites das revistas que cobram APC pode ajudar a compreender melhor algumas delas.

Curiosamente, algumas revistas de Acesso Aberto (AA) Dourado na América Latina incluem, em suas políticas editoriais e de submissão, os motivos da cobrança de taxas aos autores. Elas costumam listar os itens cobertos por essas taxas, como custos administrativos associados a processos de submissão e edição, tradução, manutenção do site e pagamentos de DOI, entre outros. Tal transparência quanto à cobertura da estrutura de custos editoriais não surpreende, visto que muitos editores latino-americanos são, na verdade, universidades e instituições de ensino e pesquisa sem fins lucrativos e/ou públicas. As razões para cobrar APCs apontam para os desafios que as instituições editoras enfrentam para sustentar a infraestrutura técnica necessária à publicação em acesso aberto, com as taxas dos autores servindo, muitas vezes, como complemento ao financiamento principal das instituições patrocinadoras. 

Em outras palavras, na América Latina, muitas instituições editoras parecem depender das taxas de publicação de artigos (APCs) como fonte de renda suplementar, e não como fonte de lucro, o que contrasta com o papel das taxas de autor nos modelos de negócios de editores comerciais, conforme observado em muitos estudos. No entanto, a maioria dos periódicos latino-americanos indexados no DOAJ em 2025 adota o modelo diamante (95% de 3.337). Porém, tamanha participação dos periódicos diamantes não é exclusividade do DOAJ, mas sim um padrão regional, já que o modelo diamante é prevalente na América Latina (Beigel, 2025; Beigel et al., 2024; Alperin, 2022).

O modelo de Acesso Aberto Diamante permanece predominante no ecossistema de publicação acadêmica latino-americano. Contudo, o número crescente de instituições editoras sem fins lucrativos que cobram APCs ressalta a necessidade crucial de financiamento público e institucional sustentável para salvaguardar, a longo prazo, a viabilidade e a acessibilidade dos periódicos de Acesso Aberto na região.

References

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